
De vez em quando choro. É bom chorar. Eu não tenho vergonha, mas em
todos os momentos existe a certeza de ter feito uma escolha acertada, de
estar caminhando em direção à luz. Não nego nada do que fiz, também não
tenho arrependimentos ou mágoas: eu não poderia ter agido de outra
maneira — mesmo em relação a você — levando em conta o quanto eu estava
confuso naquela época. Também já não tenho aquelas queixas infantis, na
base do ‘tudo dá errado pra mim’, ou autopunições como ‘eu sou uma
besta, faço tudo errado’. Nada é errado, quando o erro faz parte de uma
procura ou de um processo de conhecimento. Gosto de olhar as pedras e os
desenhos do vento na superfície da água, gosto de sentir as
modificações da luz quando o sol está desaparecendo do outro lado do
rio, gosto de sentir o dia se transformando em noite e em dia outra vez,
gosto de olhar as crianças brincando no corredor de entrada e das
palmeiras que existem no meio da minha rua — gosto de pensar que vou
sempre ter olhos para gostar dessas coisas, e por mais sozinho ou triste
que eu esteja vou ter sempre esse olhar sobre as coisas. Não sei muito,
também não tenho muito, também não quero muito, mas estou aprendendo a
respirar o ar das montanhas.
Caio Fernando Abreu
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