Manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso,
funcionária relapsa.
Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o
campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais
sono!
Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará
antes das onze e olhe lá.
Cortinas nas janelas para evitar a luz violenta, café servido na
cama.
Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma
funcionária subalterna, de rígidos horários.
Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrela que a Noite
acende com medo do escuro.
A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.
Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada
em direção ao horizonte.
Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar.
Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar
durante o dia, uma tristeza.
Jorge Amado

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